Aluga-se.

 

“Aluga-se”

  - Marcela Lordy e Martha Nowill.

    O início de Aluga-se é fundamental para compreender o contexto geográfico em que, de certo modo, subintende-se como bobe expiatório das corporações imobiliárias; porém, a justificativa que interpreto logo de início não é de um todo errada. Como assim? No início do filme um francês explana de forma simples o aumento da população mundial. Fato inegável. Depreende-se que devido ao contínuo aumento populacional seria preciso haver uma oferta de moradias a altura – literalmente. Há de se concordar; todavia, o documentário contesta a lógica pela qual se engendra esse processo imobiliário.   

     É nesse contexto que se insere tal lógica do mercado, da especulação imobiliária e a indústria de condomínios, cujo local de atuação, no caso, é a cidade de São Paulo. Ali, os dramas da vida privada e as relações interpessoais ocorrem em um meio urbano quase insólito. Tanto é que as personagens não se reconheciam mais na própria cidade. As construções e espaços eram tão efêmeros que os protagonistas se questionavam ao passar por certas localidades – o concreto mudou, mas a memória cultural permaneceu. Entretanto, essas transformações não ocorriam de forma natural, gradativa ou como uma reforma necessária. O que ocorre, então? A transmutação urbana se reproduz assustadoramente; ela opera por meio do capital especulativo, corrupção nos órgãos municipais, falta de leis claras e fiscalização, entre outros problemas (históricos); visto que em uma passagem do filme, um radialista relaciona fraudes imobiliárias com a então gestão do prefeito Gilberto Kassab.

        Dessa maneira, o protagonista alega que uma suposta corporação comprou todas as casas da rua, como se fosse um brechó de roupas... Eles vêm e compram tudo... Por um preço irrisório e pressão constante, eles aparecem e desapropriam os cidadãos. No lugar das casas unifamiliares e ajardinadas, uma torre de Babel é erguida, ou melhor, várias torres de Babel. Dentro dela, compartimentos de 50 metros quadrados são os aposentos – a preço de ouro... A personagem coadjuvante, por sua vez, perambula pelos bairros procurando alguma casa para morar, porém, o capital especulativo já havia chegado antes... “Tenho a impressão que a cidade toda vai virar um Itaim Bibi” disse ela. O Itaim Bibi foi um bairro popular de São Paulo, mas a partir da década de 1960 empreendimentos privados gentrificaram a região, isto é, a classe trabalhadora foi expulsa, pois o barro foi elitizado, de modo que torres envidraçadas e modernas brotaram de todos os lados.  

         Quem são essas pessoas que mandam na cidade? Elas mandam onde vivemos? “Quem são eles?” “Quem eles pensam que são?” diz a canção do grupo Engenheiros do Hawaii – Enfim, o protagonista planeja ter um filho, mas se preocupa quanto a gaiola (superfaturada) em que seu filho ficaria preso. Onde viver então? Numa lata de sardinhas? Bem, certa vez ouvi um comentário do cantor Léo Jaime, ele abriu uma contradição dentro do Capitalismo levando em conta (veículos nos engarrafamentos) - eu arrisco a transportar sua lógica ao capital imobiliário: o modo como ocorre o Capitalismo atual parece ser um tanto quanto contraditório, ou, traduzindo, famílias com rendas diferenciadas morando em um mesmo edifício, no qual todos os apartamentos são iguais... Um paradoxo.

           Para aqueles que ainda não assistiram Aluga-se, desejo um bom filme!  

Assista ao trailer aqui.

 

 

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